domingo, 9 de fevereiro de 2014

124 pessoas = 12 %



Pra quem nunca foi a Buenos Aires explico que um ‘kiosco’ é uma lojinha, geralmente pequenininha, às vezes só uma porta ou uma janela que dá pra a calçada, onde se vendem – além de cigarros – chicletes, balas, bombons, chocolates e todas essas coisas que crianças e adolescentes adoram. Em Buenos Aires há ainda milhares deles. Tenho a impressão de que quando eu era adolescente havia mais. Mas sempre tem uma criança por ali pedindo um chiclete ou um chocolate.
Eu tenho lá na Argentina um primo que quando a gente tinha uns quinze anos era tido na família como pão duro. E era mesmo. Além de pão duro ele pensava demais em dinheiro. Sabe aquela pessoa que sempre faz a conta antes de ir a qualquer lugar, a qualquer programa? Então, era ele. Muitas vezes eu tinha que pagar com a minha mísera mesada só pra ele não deixar de nos acompanhar ao cinema ou aonde fosse. E ele vivia dizendo coisas muito engraçadas sobre como ganhar dinheiro quando crescesse.
Teve uma que ficou antológica e que matou a gente de rir por muito tempo. Ele disse:
“¡Ya sé cómo hacerme rico! Voy a poner un kiosco cerca de todos los colegios...
Lo difícil va a ser juntar todos los colegios.”    
Fazendo uma pequena adaptação e trazendo pra a nossa cultura, só pra fazer mais sentido, seria algo assim:
“Já sei como é que eu vou ficar rico! Vou colocar um carrinho de pipoca perto de todos os cinemas...
Difícil vai ser juntar os cinemas todos.”
Mas por que eu tô falando dessa história?
Porque essa anedota de adolescente parece ter virado a realidade do capitalismo atual, que se já era absurdamente desumano, tá ficando infernal.
A divulgação de que 124 pessoas detêm o correspondente a 12% do PIB do Brasil, escancara uma situação insustentável.
Se fôssemos brincar de matemática corresponderia dizer que, pra essa situação ser absolutamente justa, isonômica, equânime, o país teria que ter mil habitantes.
Se o país tivesse 10 mil habitantes já haveria uma injustiça – tolerável talvez.
Havendo 100 mil habitantes essa injustiça já deixaria de ser tão tolerável.
Com um milhão de habitantes no país já não haveria como aceitar que 124 pessoas detivessem 12% da riqueza. Seria desigual demais. A posse dessa riqueza por tão pouca gente certamente geraria níveis de pobreza inaceitáveis em parte importante da população.
Já no caso do país ter 200 milhões de habitantes é preciso que cada um reflita sobre o que isso significa. 
É assim que o capitalismo neoliberal tem funcionado. Esqueceram todas as teses da origem do sistema. Teses que, é bom lembrar, já admitiam um sistema muito desigual, mas cuja justiça mínima seria garantida pelos próprios atores sociais. Se essas teorias já eram falaciosas, o que dizer do desenvolvimento delas que nos trouxe até esta situação? Jogaram até o Adam Smith e o Montesquieu no lixo. A competição foi substituída pelo monopólio. Ou pelo oligopólio. A mão invisível do mercado é, hoje, a mão leve da corrupção corporativa. O avanço tecnológico não deriva do ‘self-interest’, mas do contrabando e roubo de tecnologia, ainda produzida em larga escala dentro de universidades estatais. Não há ética em um ambiente onde o lucro a qualquer preço é o objetivo único. A reserva de mercado é instrumento recorrente.
Os laboratórios farmacêuticos, aliados às seguradoras de saúde e com os doutores como embaixadores nos mostraram isso recentemente.
No Brasil há, atualmente e na prática, cinco bancos. E dois são públicos. Cada brasileiro que sai da invisibilidade econômica - devido a práticas socialdemocratas - encontra uma opção nula de onde abrir uma conta - devido a práticas neoliberais.
Cada brasileiro que consegue ter uma sobra no orçamento pra fazer um churrasquinho e tomar uma cerveja se submete a um mercado em que 98% pertencem a quatro cervejarias, que põe à nossa disposição o mesmo tipo de cerveja.
Cada brasileiro que consegue comprar um telefone celular encontra quatro operadoras pra escolher qual vai roubá-lo durante alguns anos.
Quase a totalidade da mídia é dominada por 5 famílias. Não há mais do que seis ou sete canais de tv aberta. Todos com o mesmíssimo lixo cultural, a mesma opinião travestida de informação, a mesma visão preconceituosa da nossa sociedade que só corresponde à elite. 
E essa situação que beira o ridículo não é privilégio do capitalismo tupiniquim, ainda que aqui pareça mais assustador. A verdade é que o neoliberalismo internacional determinou, entre outras coisas, que, primeiro, um continente inteiro ficasse de fora da distribuição da riqueza internacional, depois contingentes enormes no terceiro mundo também, e, mais recentemente, países do próprio grupo de elite entrassem na fila da sopa. Sopa essa cujos ingredientes são produzidos pelos que estão na fila.
Foi isso que fizeram. Transformaram a piada de um garoto de 15 anos em realidade defendida por milhões de - pasmem - adultos.
Não se deram nem sequer ao trabalho de... trabalhar.
Nem aquela velha história do esforço individual e empreendedor recompensado levam em conta. Não. Trabalhar não. Colocar vários carrinhos de pipoca em cada cinema, e que venda mais a pipoca mais gostosa, nem pensar. Colocar alguns kioscos perto de cada colégio, e que venda mais o que tiver melhor preço, nunca.
Fizeram aquilo que 30 anos atrás nos fazia dar gargalhadas.
Juntaram os kioscos!

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Elite?


Eu tô meio indignado com algumas coisas que vêm ocorrendo no Brasil. Mas não pensem que eu vou reclamar – igual a um monte de inocentes úteis – da corrupção na política. Esse é o menor dos nossos males e deriva da corrupção intrínseca da nossa elite. Não sei qual é o maior dos nossos males, mas provavelmente a qualidade dessa elite é um deles.
É disso que quero falar.
O caso da repulsa aos programas sociais do governo já virou crônico, quase anedotário. O mesmo com qualquer tipo de ação afirmativa. Tudo que tenda à democratização do acesso é imediatamente bombardeado com argumentos ridículos. Já escutei até de uma moça loira o seguinte: “não devo historicamente nada para os negros, eu nunca tive escravos”. E por aí vai.
Essa história dos médicos, além de umas outras aí, tem me irritado muito.
Como é que pode uma pessoa que teve de tudo na vida, que nunca passou por nenhuma necessidade, que foi bancada até quase os trinta anos de idade pelos pais, ser tão vil? De onde vem esse desprezo tão desumano por outras pessoas, pelo povo?
Seria normal ver maldade em alguém cuja vida tivesse deixado cicatrizes incuráveis, uma vida cheia de humilhações, pobreza, violência, etc. Mas de quem sempre teve do bom e do melhor é absurdo, né? Pois é, não. É o mais normal, infelizmente. Entre o filhinho de papai e o filho do trabalhador é mais fácil encontrar generosidade, solidariedade, responsabilidade, docilidade, senso de coletividade e respeito à coisa pública no segundo do que no primeiro. Por isso é que falo do problema da qualidade da nossa elite.
Pra começar, o fato é que se trata de uma elite social e não intelectual ou cultural. Os mesmos que chamam de ignorantes a grande massa de trabalhadores do país não tem nível cultural que os faça diferentes. A enorme maioria das pessoas que, olhando do alto das suas posses, desdenha da educação formal – ou da falta dela – do povo não lê nem sequer um livro por ano, não vai ao teatro, não frequenta museus, não conhece arte, nem história, nem geografia, nem idiomas. E só se informa na rede globo e na veja. Além disso, não tem capacidade crítica pra compreender nem sequer a divisão de poderes, mais ou menos à la Montesquieu, que se adotou no Brasil e em boa parte do mundo.
Não quero aqui discutir questões classistas. É claro que a luta de classes está presente em tudo e, mais ainda, no que está ocorrendo em toda a América Latina. Mas o que eu quero frisar é a baixíssima qualidade das nossas elites. São tão fracos intelectualmente, politicamente, culturalmente, que nem com todos os instrumentos que têm, e sempre tiveram, conseguem administrar a fatia do poder que gostariam. Com todo o aparato da informação que acumularam ainda não conseguem ser convincentes. E mais, usaram tão mal alguns instrumentos - como os meios de comunicação - que lhes tiraram boa parte da credibilidade: qualquer um com três neurônios procura verificar a informação que lhe chega via mídia corporativa. Os médicos agora estão tentando estragar a reputação das associações que os representam. E estão conseguindo. Já é comum escutar nas mesas de bar que os crm ou o cfm só se preocupam com questões corporativas e estão cantando e andando para o povo. A oab, em alguns estados, trilha caminho semelhante.
Agora apareceu outra prova da falta de categoria dessa nossa elitezinha.
Vai um sujeito, chefe de um dos poderes da república (já falei da dificuldade que é explicar isso), receber, junto a outra chefe de outro poder da república, um terceiro chefe – nesse caso de um estado e de uma religião. Aquele primeiro resolve negar o cumprimento à segunda. O quê que a elite engomada, coxinha, insensível e inculta acha do caso? Lindo! Bem feito! Foi é pouco!
Modos, cortesia, gentileza, cordialidade, que seriam de se esperar de quem sempre esteve socialmente por cima, não existem. A altivez com que eles querem ser retratados desaparece imediatamente diante da oportunidade de fustigar quem não lhes cai bem.
Ah, faça-me o favor! Grosseria pior do que essa nem os trabalhadores braçais mais humildes que a elite despreza cometem no seu dia a dia.
Se você é desses da elite e tá a fim de exercer seu direito de ser canalha, de espernear porque um governo quer dar comida com um mínimo de educação pra a população que precisa, saúde para os habitantes dos rincões mais longínquos, dignidade para aqueles que você despreza – ou ignora -, eu recomendo que você comece a se aprimorar na arte da aristocracia. Melhore seus modos, nas redes sociais e no trânsito. Aprimore sua etiqueta no trato pessoal. Adquira alguma cultura. Pode começar pelo Pequeno Príncipe mesmo.

domingo, 5 de agosto de 2012

Neocons


Eu tava lendo, conversando e pensando sobre os neoconservadores*. Cheguei a uma conclusão curiosa.
Eles têm muita certeza sobre tudo que pensam, mas usam uma lógica estranha.
·       Os neoconservadores são contra qualquer interferência de governos na economia. Eles acham que governos não têm que “se meter” em questões de produção e comércio, acham que o mercado resolve tudo de boa maneira.
·       Eles são contra políticas afirmativas, cotas raciais ou sociais, etc. Consideram que a meritocracia e o mercado devem prevalecer.
·       Os neoconservadores, em sua maioria, são contra, também, políticas públicas de renda mínima ou de segurança alimentar, às quais chamam assistencialismo, como o bolsa-família. Eles pensam que o sistema se adequará e aos poucos incluirá a todos. Sem interferências governamentais.
·       Da mesma forma combatem programas públicos de moradia.
·       Eles também são contra a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Acham que deveria haver leis que a proíbam.
Vamos resumir e tentar entender:
·       Quem produz, quem vende e quem compra o quê não são da alçada do Estado. São assuntos PRIVADOS.
·       Dar oportunidades aos humildes e explorados historicamente de melhorar de vida por meio da educação não é responsabilidade do Estado. É um assunto PRIVADO.
·       Garantir a subsistência de famílias, garantir que suas crianças não morram de fome não é obrigação dos Estados. É um assunto PRIVADO.
·       Dar a certeza e a dignidade da moradia à sua população não é dever do Estado. É mais um assunto PRIVADO.
·       Quem ama quem, quem vai morar com quem, quem vai dividir a vida com quem. Esse é um assunto em que o Estado deve interferir. Esse assunto é, para os neoconservadores, PÚBLICO!

* Eufemismo para a atual direita nativa.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A Dama(?) de Ferro

Vi ontem o filme “A Dama de Ferro”.
Embora soubesse que iam tentar passar nela um verniz de humanidade, o que é, de certa forma, natural, consegui ver o filme todo mantendo a visão crítica de que aquilo é um monstro.
Eu acho até aceitável que se tente perdoá-la, agora que ficou velha e doente. Mas é bom lembrar que as Margarets também envelhecem.
Para um filme que mostra só um ponto de vista – a neutralidade não existe em política – até que conseguiram não santificar aquela coisa autoritária, direitista, insensível e injusta que caracteriza os líderes que, ao lado da Thatcher, trouxeram definitivamente para o mundo a ideologia neoliberal cujo resultado todos, inclusive o Reino Unido, conhecem.
A melhor parte é a Meryl Streep.
A questão feminina também atrai, mas, cuidado!
É, guardadas as devidas proporções, como colocar o Dustin Hoffman pra fazer a biografia do Hitler. Vai dar vontade de entender as razões dele. No entanto, temos a obrigação de resistir.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O capitão do mato

Vocês sabem o que significa capitão do mato?
Devem saber, mas por via das dúvidas explico - era uma expressão usada para referir-se aos jagunços que se dedicavam a recapturar escravos fugidos. Isso lá no século XIX. No Brasil colônia ou império.
A primeira vez que pensei sobre essa, digamos, atividade, foi por causa de uma novela da Globo. Não me lembro o nome, só me lembro que o capitão do mato era o Toni Tornado. Aquilo me incomodava muito: o cara era negro e fazia aquelas barbaridades com os outros negros. Ele era especialmente cruel. Tratava os escravos que ele recapturava como lixo, na base da porrada, da mesma forma que os senhores deles. Depois os levava de volta às fazendas de onde tinham fugido e cobrava pelo serviço.
Essa história me incomodou tanto que fui procurar mais informações sobre os capitães do mato e descobri que não raramente eram negros. O próprio Rugendas (Johann Moritz), o maior pintor/desenhista dos tempos do império no Brasil, retratava capitães do mato negros.
Descobri também que eles eram odiados e temidos pelos escravos, por razões óbvias e desprezados pelos senhores de engenho e fazendeiros em geral, além de toda a sociedade elegante da época, por sua origem e pela indignidade do seu ofício.
Agora veja só – o sujeito nasceu negro, na África ou aqui mesmo, foi escravo e, por alguma razão, deixou de ser (alforria, por exemplo). Ou então nem era escravo, não era negro, mas vinha das camadas mais baixas da sociedade.
E então ele deixava de se sentir pertencendo àquela casta, ou talvez nunca tenha pertencido, e se afastar dela era indispensável. Ele a detestava.
Mas jamais conseguia entrar nas camadas superiores. Não seria fazendeiro e dono de seus próprios negros. Não alcançaria ascensão social expressiva.
Por causa dessa situação ele tinha mil medos:
medo de que a escravidão acabasse e com ela a sua fonte de renda;
medo de que os escravos, em qualquer momento, se rebelassem e sua integridade física e seu patrimônio ficassem ameaçados;
medo de que muitos se convertessem no mesmo que ele e assim seu suposto status se diluísse;
medo de que os senhores parassem de pagar pelos seus serviços;
e um vasto etc. de medos.
Esses medos é que moviam suas relações sociais. Neles estavam baseadas todas as suas decisões pessoais e a sua sobrevivência. Enfim, a sua atuação na sociedade.
A dinâmica desses medos fazia com que ele partisse para o desprezo e a raiva daqueles que estivessem, na sua percepção, socialmente abaixo. Daí a sua maior luta. No lugar da solidariedade para com seus pares, lhes reservava o ódio, no lugar da tolerância a violência, no lugar da fraternidade a maldade.
Uma análise psicológica talvez revelasse uma aversão àquilo que ele mesmo representava, em contraposição àquilo que se quisesse ser.
Assim é como vejo a classe média – ou parte dela – no Brasil atual.
Façam vocês mesmos as comparações.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Glossário Eleitoral 2010 - De A a Z

Direto das Redações

Para melhor entendimento dos termos usados nas nossas matérias e das ideias associadas a eles faremos circular entre nossas equipes de jornalistas este glossário, elaborado pelo conjunto das redações das Organizações Globo, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Editora Abril, Rede Bandeirantes e outros menos importantes.

Solicitamos que todos – mesmo – os jornalistas dessas casas leiam e decorem o glossário, a fim de que nossa função social sagrada de bem informar o público seja executada de modo padronizado. Consideramos indispensável tal padronização uma vez que nossa força advém da nossa união e da nossa união virá a verdade, que será repetida à exaustão, ainda que pareça mentira. Se a verdade continuar parecendo mentira estamos certos de que a razão para tal terá sido a displicência no domínio do glossário que segue.

Bom trabalho e mãos à obra. A oposiç, ou melhor, a opinião precisa de nós.

Ameaça à Liberdade de Expressão – é quando alguém que não é detentor do direito descrito no verbete ‘Liberdade de Expressão’ reclama de ter sido ofendido.

Blogs Sujos – parte do verbete ‘Internet’ formada por clandestinos subversivos usurpadores de direitos.

Corrupção – é quando nossos inimigos parecem estar fazendo algo que talvez não seja permitido.

Democracia – é o sistema político em que nossos amigos estão no poder.

Deputado Corrupto – deputado da turma do verbete ‘Presidente II’ que por mais que tente não vai ter espaço para provar que não é ele (ou ela) no vídeo que ninguém viu e no áudio que ninguém escutou.

Deputado Supostamente Envolvido com Irregularidades – deputado da turma do verbete ‘Presidente I’ que tem o direito de tentar explicar aquele dinheiro todo no vídeo que vazou.

Diplomacia – Tirar o sapato pra entrar nos EUA.

Ditadura – é o sistema político em que nossos inimigos estão no poder. É o oposto exato do verbete ‘Democracia’.

Eleições – são os momentos esporádicos em que nós fingimos abrir mão de parte do nosso poder de decisão sobre todas as coisas e tentamos conduzir o verbete ‘Povo’ ao rumo que é melhor pra ele.

Eleições Fraudadas – são os meios para atingir o verbete ‘Ditadura’. Ou seja, modo pelo qual nossos inimigos chegam ao poder. Verbete nunca aplicável para os EUA.

Fracasso Diplomático – agir como verbete ‘República de Bananas’.

Ficha Limpa – é aquela lei que se a gente soubesse que ia dar mais trabalho pra a turma do verbete ‘Presidente I’ do que pra a do verbete ‘Presidente II’ nós não teríamos aprovado.

Golpe – esse verbete varia de acordo com as circunstâncias, na nossa história recente o chamamos Revolução.

Homem de Bem – pessoa que tem dinheiro e com ele comprou alguns direitos, geralmente é o oposto do verbete ‘Povo’.

Impostos – coisa indefinida que não pagamos e achamos que não temos mesmo que pagar, embora reclamemos que são abusivos.

Internet – veículo abstrato que não conseguimos – ainda – dominar. Às vezes usada clandestinamente por um monte de gente à qual determinados direitos não foram devidamente adjudicados. Mais descrições no verbete ‘Blogs Sujos’.

Jornalista – é o profissional ao qual foi adjudicado por nós o direito de uso do verbete ‘Liberdade de Expressão’. É aquele que temporariamente pode exercer esse direito, ainda que em caráter temporário e revogável.

Liberdade de Expressão – é o nosso direito (outorgado por nós mesmos) de publicar o que bem entendermos sobre quem ou o quê quisermos, quando der na nossa telha.

Liberdade de Imprensa – é a formalização empresarial do verbete ‘Liberdade de Expressão’.

Mentira – esse verbete foi incluído aqui só a título de lembrança, mas todos que trabalham em nossas empresas já sabem. É aquilo que repetido um milhão de vezes...

Meritocracia – é a prova de que quem faz parte do verbete ‘Homem de Bem’ não está lá por acaso, nem por ter tido oportunidades, nem por já ter nascido lá, mas sim por possuir o verbete ‘Qualidade’.

Nepotismo – é quando alguém da turma do verbete ‘Presidente II’ tem parentes que não estão desempregados. Se qualquer parente de alguém dessa turma tiver emprego em alguma empresa pública, seja por concurso ou não, se aplica este verbete. Se o parente trabalhar em empresa privada o verbete também se aplica, já que a investigação para se chegar a um relacionamento dessa empresa com o governo é simples e não falha. Para essa investigação pode-se lançar mão do verbete ‘Sigilo da Fonte’. Caso este verbete seja usado contra alguém da turma do verbete ‘Presidente I’, alega-se capacidade técnica.

Oposição – verbete que interinamente nossas empresas ocupam.

Povo – termo vago muito útil em época de verbete ‘Eleições’, mas desnecessário em outras épocas. ATENÇÃO - Não tem nenhuma relação com o verbete ‘Democracia’.

Presidente – verbete subdividido em duas partes por força de tropeços históricos.
*Presidente I – professor e sociólogo brilhante, inventor de todas as coisas boas que há no Brasil e nos países vizinhos, respeitador dos verbetes ‘Democracia’, ‘Diplomacia’, ‘Liberdade de Expressão’, ‘Liberdade de Imprensa’ e ‘Jornalista’. Por alguma razão que ainda não conseguimos mudar é desprezado pelo verbete ‘Povo’.
*Presidente II – cara barbudo que não sabe nem ler, nem escrever, nem falar, que abusa dos verbetes ‘Ameaça à Liberdade de Expressão’, ‘Ditadura’, ‘República de Bananas’, ‘Equívoco Diplomático’, ‘Internet’ e ‘Blogs Sujos’. Por alguma razão que ainda não conseguimos mudar é amado pelo verbete ‘Povo’.

Qualidade – é o verbete simbólico para a expressão da hegemonia do verbete ‘Homem de Bem’. Ou seja, o verbete ‘Homem de Bem’ se impõe pela capacidade individual, situação oposta à do verbete ‘Povo’ que pretende aparecer baseado no verbete ‘Quantidade’. O verbete ‘Qualidade’ pode estar diretamente associado ao ‘Meritocracia’.

Quantidade – termo usado na falta do verbete ‘Qualidade’, associado sempre à imagem do verbete ‘Povo’.

República de Bananas – país latino-americano que ousa enfrentar os EUA.

Sigilo Fiscal ou Bancário – direito assumido pelo verbete ‘Homem de Bem’ e obviamente desnecessário para o verbete ‘Povo’. Até por que este último não tem nem que ter conta em banco.

Sigilo da Fonte – argumento permitido ao verbete ‘Jornalista’ quando faz denúncia contra o verbete ‘Deputado Corrupto’.

Terrorista – aquele que lutou contra o verbete ‘Golpe’, mais apropriadamente chamado revolução, e que não mudou de lado em trinta anos. Há vários exemplos de oposto do verbete ‘Terrorista’ nos verbetes ‘Jornalista’ e ‘Deputado Supostamente Envolvido com Irregularidades’.

UDN – por razões estratégicas fica proibido fazer qualquer menção a este verbete em nossas publicações durante este ano.

Voto – instrumento inútil que tenta fazer iguais dois verbetes tão diferentes quanto ‘Homem de Bem’ e ‘Povo’.

X – letra pouco útil já que é o símbolo do verbete ‘Voto’.

Zero – é a quantidade de acertos do verbete ‘Presidente II’ que independem da esplêndida herança recebida deste pelo verbete ‘Presidente I’.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Desta vez pra quem não concorda comigo

Eu tô acostumado a escrever pra quem pensa mais ou menos como eu, na verdade quase sempre escrevo pra mim mesmo, e ninguém concorda mais comigo do que...eu.
Poucas vezes alguém que não tem uma opinião parecida com a minha ou mesmo quem não tem uma opinião muito formada lê o que eu escrevo.
Mas hoje, movido por uma série de e-mails que recebi, resolvi escrever pra conversar, ou pra interagir, com quem é o meu oposto ideológico. Ou seja, vou escrever pra quem, em termos políticos, é adversário em potencial.
O começo do meu raciocínio, aliás, é exatamente a questão do adversário em termos políticos. São meus adversários em termos políticos várias pessoas que admiro, respeito e gosto. Muitos amigos, alguns parentes, conhecidos, etc. que merecem meu apreço e, às vezes, dividem comigo partes da minha vida, além, é claro, de inúmeras mesas de bar.
Por ter relação tão próxima com tantos adversários políticos é que resolvi desta vez escrever pra eles.
A principal razão é a proposta que quero fazer.
Com o calor da disputa eleitoral temos visto ânimos mais à flor da pele do que costuma ocorrer normalmente, no que tange à discussão política. Gente que no dia a dia é afável, de fácil trato, suave, tem ficado mais agressiva, mais dura. E não estou falando só quanto ao relacionamento pessoal, mas principalmente quanto à forma acalorada com que se reverbera (ou se cria) adjetivos e ataques para uso na campanha pela internet.
A primeira proposta é pra aqueles que dizem se eximir de participação direta em questões políticas:
Vamos todos assumir que estamos em campanha!
Quando vocês mandam um e-mail que pretende convencer alguém a votar de determinada maneira estão fazendo campanha política.
Quando vocês comentam numa fila que fulano de tal é $#@$%#&*¨!, se não estiverem se referindo ao síndico chato do prédio, mas a algum partícipe do jogo político, vocês estão fazendo campanha.
Quando vocês permitem que a moça de amarelo no sinal cole um adesivo com um número de candidato nos seus carros, vocês estão fazendo campanha.
Uma vez que assumimos que estamos em campanha agora façamos outros tratos.
O segundo será: vamos nos respeitar e não desqualificar uns aos outros.
Meus queridos (sem nenhuma ironia) adversários políticos “quase sempre” recebem de mim o respeito a que fazem jus. Digo “quase sempre” tentando achar que o faço sempre, mas considerando que posso falhar, como qualquer um, às vezes.
Pois bem, da mesma forma quero merecer o respeito de meus interlocutores.
Não mandemos coisas que subestimam a inteligência de quem vai ler.
Não espalhemos mentiras escritas pra quem não tem senso crítico acreditar. É muito chato ler algo que está endereçado a um imbecil. Porque dá a sensação de que quem te mandou te acha isso.
Não mandemos textos supostamente escritos por pessoas famosas (Luís Fernando Veríssimo, Affonso Romano de Santana, etc.) que não resistem a uma simples consulta no Google ou, pior ainda, que não resistem ao nosso mero conhecimento sobre o estilo de tais autores.
Não divulguemos textos de próceres da história da humanidade, a maioria deles já mortos, como se eles fossem cabos eleitorais de nossos preferidos. Chega a ser absurdo receber textos ou frases do Gandhi ou do Martin Luther King como se eles fossem filiados ao PSDB e estivessem em plena campanha pela eleição de José Serra. Por favor, vamos poupar grandes personagens históricos de se revirar nos túmulos!
Quando eu recebo um e-mail que diz: nós estamos perdidos com essa bruxa... o que penso é que mandaram pro e-mail errado. Eu já tenho 40 anos. Eu acho que esse e-mail deveria ser enviado à minha filha de 5 anos, que, talvez, por medo de bruxas, votasse no adversário.
Certamente há muitas razões pra não se votar em Dilma Roussef, em Serra ou na Marina, além de todos os outros, meu querido amigo Ivan Pinheiro inclusive. Mas não façamos uma discussão baixa, sem nenhum sentido propositivo e sem esperanças de, na interseção, encontrarmos caminhos comuns que conduzam a vida do nosso país e, por conseguinte, a nossa vida, a bom rumo.
Vamos exaltar as qualidades positivas do debate democrático e respeitoso. Vamos usar nosso poder de convencimento pra mostrar que nosso candidato(a) e nossas idéias são melhores e não menos piores ou menos ladrões.
Eu voto e faço campanha pela Dilma. E não é por causa das coisas que sei sobre o Serra. E olha que sei muitas e muito cabeludas, afinal, já trabalhei como tradutor pra agências de publicidade de Belo Horizonte e de São Paulo que atendiam o governo federal e os governos estaduais do PSDB, e já trabalhei como tradutor até para a polícia federal.
No entanto decido meu voto pelas questões ideológicas e pelas questões práticas que me conduzem a essa opinião.
Não me interessa se a Marina tem patrimônio maior do que o apresentado às instâncias eleitorais, me preocupa muito mais como vai ficar o patrimônio do trabalhador simples no futuro.
Não quero saber se o Serra tem sócios suspeitos de crimes graves, quero saber como vão ficar os sócios da Petrobrás, ou seja, todos nós brasileiros.
Não quero saber se alguém, supostamente do PT, violou o sigilo fiscal de gente do PSDB, quero saber quem vai ser o fiscal das obras que têm que ser feitas no país.
Portanto, vamos tentar convencer uns aos outros de que nossos candidatos são melhores. Mandem-me e eu lerei com prazer, atenção e respeito as propostas de Serra e Marina, e quem sabe mudarei de idéia se identificar saídas melhores para nossos problemas. Digam-me o que eles pensam sobre educação, sobre o fim do vestibular, sobre as cotas, sobre o aborto e sobre a saúde de forma geral, sobre relações internacionais, sobre direitos humanos e a lei da anistia. Ah, e digam também como eles pretendem colocar suas idéias em prática.
As idéias da minha candidata acerca desses assuntos eu já sei. As dos outros, não. Não fizeram uma campanha capaz de me informar minimamente. E quem manda e-mails dizendo absurdos sobre a minha candidata não ajudou em nada. A própria imprensa se ocupou de cuidar da massiva tentativa de desqualificação dela e também não colaborou pra que eu e milhões de outros conhecêssemos melhor as alternativas que existem.
E é preciso que fique claro pra quem está do lado da oposição que o fato do cara ter uma filha que pode ter sido bisbilhotada por um inimigo político não dá a ele cacife pra ser presidente da república. É preciso ter alguns méritos, que certamente ele tem, mas não se preocuparam em me mostrar. Só se preocuparam em me convencer a não votar do jeito que quero.
Com isso dão abertura à discussão que foi gerada na sequência, de que a bisbilhotada é, na verdade, grande bisbilhoteira e aí fica um sem fim de acusações - sem provas, aliás.
Quem tem interesse nisso não são vocês nem sou eu. Quem ganha com isso são aqueles que querem que paremos de discutir política e nos afastemos “dessa sujeirada toda”. Quanto menos a gente aqui discutir política mais alguém lá terá massas de manobra e poder para usá-las.
Faço essas propostas porque acho que o momento presente é importante demais pra que não discutamos política agora.
Porém o mais importante é o que virá no futuro. E com certeza depois de 3 de outubro assim como depois de todas as datas de eleições vindouras precisamos conviver todos no mesmo país, na mesma cidade, nas mesmas empresas, escolas e casas. E precisamos construir juntos o nosso futuro. Sem que queiramos nos evitar nas próximas oportunidades e sem que divergências de opinião nos transformem em inimigos irreconciliáveis.
Vamos, então, ao embate! Porém, com sabedoria, sensibilidade e respeito.